Milhares de pequenos e médios viticultores podem deixar a atividade nos próximos anos

Milhares de pequenos e médios viticultores podem deixar a atividade nos próximos anos

Produzir uvas para vinhos Douro DOC (Denominação de Origem Controlada) não compensa, porque são pagas a metade do que custa produzi-las.

Francisco Rodrigues, proprietário da Quinta do Monte Bravo, em São João da Pesqueira, ajuda a perceber o prejuízo que dá produzir uvas no Douro:

 “Um quilo na região do Douro, podemos considerar os 0,80€ como um valor de referência para o custo/produção. Num ano normal, as uvas não destinadas a produzir o vinho do Porto, ou seja, uvas que produzem vinho de mesa ou Douro DOC, têm vindo a ser pagas na ordem dos 0,30€/0,40€.”

Quem também produz para vinho do Porto vê as uvas mais bem pagas (entre 1 e 1,5 euros por quilo), o que acaba por compensar o prejuízo com as restantes.

Ora, isto acontece na região que completou, na passada sexta-feira, 17 anos como Património Mundial.

Francisco Rodrigues salienta que este ano os preços subiram porque houve menos uvas. Se nos outros os preços são baixos é porque quem negocia as uvas se aproveita dos pequenos agricultores:

“Num ano como o da campanha passada houve uvas a serem transacionadas a preços na ordem dos 0,80€ a 1€ o kg. Significa que para haver empresas a pagar, num ano como este, esse valor, têm mercado para esses vinhos para poderem repercutir esse preço numa garrafa final. Nos outros anos, têm-se vindo aproveitar o lavrador, do agricultor, que produz essas uvas e em outros anos as entrega a 0,30€/0,40€.” 

O professor da UTAD, João Rebelo, é o coordenador científico do estudo “Rumo Estratégico Para o Setor dos Vinhos do Porto e Douro”, que foi produzido pela academia transmontana para o IVDP.

João Rebelo subscreve as preocupações dos viticultores, que foram bem identificadas também naquele estudo.

O investigador refere que a lei da concorrência não permite fixar preços, pelo que a solução passa pelo controlo da oferta, ou seja produzir menos e com mais qualidade:

 “Criar mecanismos de compensação para quem sai da agricultura. A questão que se coloca na sobrevivência é naquela dimensão intermédia que eu calcularei entre os 5 e os 15 hectares. Tem elevados custos de produção, já não consegue ser mão-de-obra familiar, e não há dinheiro para lhes pagar.”

Ora, a falta de mão-de-obra é um dos principais problemas que o Douro está a enfrentar. Joaquim Monteiro, viticultor de Ervedosa do Douro, em São João da Pesqueira, diz que alguma coisa vai ter de acontecer porque o Douro está a morrer aos poucos:

“A impressão que tenho é que o Douro está a morrer aos poucos em termos de população. Quer dizer que para manter esta paisagem viva não sei o que vamos fazer. Algo tem que acontecer porque com estas alterações climáticas e falta de mão-de-obra, é muito complicado e fala-se muito pouco disto. Nota-se o que está a acontecer, os jovens vão embora, e ficamos aos poucos sem qualquer mão-de-obra.”  

Refira-se que entre 1400 e 1500 euros por pipa de vinho do Porto e entre 500 e 600 euros para os vinhos Douro DOC são preços que os viticultores entendem ser os mais justos para conseguirem viver na região com dignidade.

Para se perceber melhor o que está em causa, vale a pena dizer também que o preço médio que se paga por um litro de vinho com denominação de origem controlada na União Europeia é de sete euros. Em Portugal o preço médio não chega aos quatro euros e cerca de 60% é vendido abaixo de 3,20 euros.

INFORMAÇÃO CIR (Rádio Ansiães)  

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