O Mascarão e a Mascarinha voltaram a sair à rua, este sábado, em Vilarinho dos Galegos, no concelho de Mogadouro.
Há cerca de 50 anos que o ritual, que pertence ao dia de Reis, não se realizava. No passado sábado, a tradição, que se insere no ciclo das festividades de inverno, foi recuperada. Antero Neto explica mais sobre estas personagens, bastante semelhantes às da Festa dos Velhos de Bruçó.
“Tem duas personagens, como o próprio nome indica: o Mascarão e a Mascarinha. Depois o ritual em si é muito parecido aos restantes, ou seja, as personagens andam pelas ruas da aldeia a fazer um peditório e entretanto vão interagindo com a população. O Mascarão transporta uma espada e com essa espada vai perseguindo os rapazes que lhe batem com bexigas. A rapaziada, os moços da aldeia têm bexigas de porco na pontas do pau, com as quais vão batendo no Mascarão e o papel dele, para além de entrar nas casas e retirar a esmola (e pode fazê-lo mesmo sem licença) e ele depois persegue os rapazes até conseguir rebentar as bexigas todas.
A Mascarinha, que tem uma máscara, com uma propriedade daqui da zona, uma renda, e transporta na mão uma lata semelhante àquelas formas de fazer bolos e com ela vai batendo também na cabeça dos circunstantes que com ela se metem, e, ao mesmo tempo vai também pedindo esmola pelas casas.
O traje do Mascarão não tem nenhum característica em especial. Seria uma máscara de papelão que serviria unicamente para tapar a identidade do ator, e uma máscara de pele de cordeiro uma vez que esta região sempre foi fértil e rica na produção de gado.”
O investigador conta que a população de Vilarinho de Galegos estava ansiosa por reavivar esta tradição.
“Apesar do tempo ter estado mau, o que não ajudou, esteve um dia de chuva mas eles saíram , a população aderiram de forma entusiástica, sendo um facto que me satisfez muito porque verifiquei que a população estava ansiosa para poder andar a percorrer as ruas atrás do Mascarão e da Mascarinha.
Porque depois o que é engraçado e curioso neste peça é que, como é dia de Reis, a população vai-se juntando, o cortejo vai engrossando e as pessoas vão cantando os Reis à medida que o mascarão entra nas portas das casas. É outra curiosidade muito interessante desta festa.”
Antero Neto lançou, no mesmo dia, o livro de sua autoria “Vilarinho dos Galegos e os seus mascarados”. Uma obra divida em duas partes: uma mais genérica, onde se fala sobre a história e as tradições da freguesia; e uma segunda metade, dedicada às máscaras e em especial ao ritual que envolve o Mascarão e a Mascarinha. A curiosidade sobre o tema surgiu fruto de um acaso.
“Foi uma coisa engraçada, porque foi o episódio que eu relato no prefácio, que eu estava afazer recolha em Vilarinho dos Galegos para outro livro que eu escrevi que era sobre as marcas arquitectónicas Judaicas e estava a entrevistar uma senhora, que estava acompanhada por outra e estavam a fazer alheiras e uma delas, curiosamente, vira-se para mim, sabendo que eu era de Bruçó e como ela trabalha no lar de 3ª idade da mesma localidade e disse-me assim: ‘Olhe que na minha terra, em Vilarinho, há uma festa mais bonita que na sua terra’. E aquilo chamou-me à atenção e comecei a perguntar-me que festa seria, e ela acabou por ir levantando a ponta do véu e isso soou-me logo a curiosidade. Como sou interessado neste tipo de coisas, decidi começar a falar com as pessoas, os mais velhos, e a fazer entrevistas na aldeia e foi então que surgiu a ideia de escrever este livro e recuperar este ritual.”
O chamado “ciclo dos 12 dias”, que compreende o período entre 20 de dezembro e 6 de janeiro, concentra a maioria destas festas. Segundo o investigador, algumas destas festas estão irremediavelmente perdidas, por não haver qualquer registo ou memória sobre elas, como é o caso do “Zangarrão” em Bruçó, no concelho de Mogadouro, e em Fornos e Lagoaça, em Freixo de Espada à Cinta.
Nesta temática, Antero Neto revela que vai participar no terceiro volume da Progestur sobre a máscara ibérica, e deve ser a última intervenção sobre o assunto. Outros projetos estão na calha. Há já um convite para investigar sobre a história de Argozelo.
Foto retirada do blogue Mogadouro (ho mogadoyro): http://mogadourense.blogspot.pt/2016/01/mascarao-e-mascarinha-de-vilarinho-dos.html
Escrito por ONDA LIVRE

