No concelho de Mirandela, com pouco mais de 20 mil habitantes, ainda há cerca de 9 mil pessoas, com mais de 15 anos, que não completaram o nono ano de escolaridade e cerca de mil nem sequer chegaram a finalizar o primeiro ciclo.
Foi com o intuito de aumentar as qualificações escolares dos adultos e melhorar as competências de literacia no concelho, que o Centro Qualifica da Consultua, em Mirandela, implementou, nos últimos dois anos, o Projeto Local Promotor de Qualificações (PLPQ) “Em Rede Qualificamos”, financiado pelo PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) e com o apoio da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional (ANQEP).
Os resultados deste projeto, que teve mais de seis dezenas de parceiros e que contou com perto de três centenas de inscritos espalhados pelas 30 freguesias do concelho, foram apresentados, esta quarta-feira, numa cerimónia, no pequeno auditório do Centro Cultural de Mirandela.
Ibrantina de Sousa, de Lamas de Orelhão, e Eduardo Nogueira de Torre de Dona Chama, foram duas das cerca de três centenas de pessoas que durante dois anos estiveram envolvidas neste projeto e na hora de fazer o balanço não têm dúvidas. “Adorei. Gostei muito”, confessa Ibrantina. “Para já porque saímos de casa, temos a mente ocupada e convivemos umas com as outras e vamos aprendendo, porque toda a vida ouvi dizer que é aprender até morrer, e é isso que uma pessoa continua a fazer”, acrescenta.
“No nosso tempo era diferente, hoje está tudo muito sofisticado, está tudo muito mais à frente, e se a gente não for aprendendo qualquer coisa, depois também não sabemos nada, nem sabemos responder. Olhe, nunca tinha pegado num computador, portanto já pode ver mesmo num telefone, para mim era muito esquisito, atendia as chamadas e respondia as chamadas, agora já respondo às mensagens, já mando mensagens, já vou tratando dessas coisinhas”, conta.
“Todas as pessoas deviam colaborar e aderir, porque ficamos com mais conhecimentos, sem dúvida”, assegura Eduardo.
“A vida já nos ensina muito, no entanto, há sempre coisas novas que a gente não sabe e fica a saber”, afirma.
O Projeto Local Promotor de Qualificações (PLPQ) “Em Rede Qualificamos” abrangeu 358 pessoas do concelho de Mirandela, sendo que cerca de 70% delas tinham uma escolaridade igual ou inferior ao 4º ano e 10% não sabiam ler nem escrever.
Tiveram uma participação ativa no projeto 271 pessoas, das quais 246 foram integradas em ofertas de qualificação.
Resultados muito positivos que “superaram as expetativas iniciais”, adianta a Diretora-Geral da Consultua:
“O grande objetivo era sensibilizar as pessoas para a importância da aprendizagem e acho que isso foi conseguido logo na primeira fase, que é a fase do envolvimento, em que as atividades pensadas eram atividades muito práticas que tinham a ver muitas vezes com o quotidiano das pessoas, mas que essas atividades também geravam aprendizagens e novas competências, a partir de situações que as pessoas conheciam, e isso ajuda as pessoas a tomarem consciência que aprender é uma aventura e também um contributo para a sua melhoria e aprender muitas vezes de forma lúdica, que também se consegue aprender”, sublinha Rita Messias que deixa um exemplo: “A realização da Cinemateca, em que as pessoas vieram para o auditório de Mirandela a assistir a um filme. Muitas delas nunca tinham vindo ao cinema e é uma atividade, de certa forma, não formal, lúdica, mas que também traz aprendizagens e sensibiliza as pessoas para novas dimensões, novas formas de estar na vida e isso é muito importante para a atualidade”, refere.
A Diretora-Geral da Consultua, também aponta esta enorme rede de parceiros como “o aspeto diferenciador” deste projeto relativamente a outros modelos que já existem de qualificação de competências dos adultos. “Trabalha mais em contacto direto com as pessoas, com maior proximidade, daí a importância do envolvimento de todos os parceiros que ajudaram nesta mobilização, já que sabemos que quanto mais escolaridade as pessoas têm, mais procuram a formação, mas quando não têm formação não se interessam e não procuram, pelo que é necessária esta articulação para poder chegar a essas pessoas que ainda não conhecem os benefícios da formação”.
Mas, para além dos números, que são importantes, o Diretor do Departamento de Qualificação de Adultos da ANQEP sublinha “a abrangência” que este projeto de proximidade teve. “Foi muito interessante cobrir várias valências, incorporar várias dimensões que possibilitam que se capacite melhor os adultos e que se alavanque a sua capacidade de mobilização para reter estes adultos, não só ir buscá-los para o sistema, porque são adultos que estarão mais afastados do sistema de qualificações ou do sistema de aprendizagem, trazê-los para o sistema, retê-los, para que eles possam continuar o seu percurso de qualificação”, diz Miguel Silva.
“Isto acaba por ser um processo de transformação pessoal também, que significa um aumento da autoestima e uma motivação adicional para estar mais participativo, quer na vertente económica, quer na vertente social, quer na vertente pessoal”, acrescenta.
Também a vereadora do Município de Mirandela, Vera Preto, releva a importância do projeto. “O conhecimento tem sempre lugar, são opções que nós fazemos e que são importantes também para o desenvolvimento do território, ninguém pode ficar para trás e portanto este projeto, quando nos foi apresentado, de imediato concordamos em sermos parceiros da Consultua para que, junto das nossas populações, pudéssemos também melhorar as suas qualificações, melhorar as suas competências e acima de tudo, tornar as pessoas mais capazes de tomarem as melhores decisões para a sua vida”, diz a vereadora da autarquia mirandelense.
Foram vários os técnicos do Centro Qualifica Consultua que estiveram envolvidos neste projeto que teve como originalidade o facto de serem eles a deslocarem-se às várias aldeias do concelho e não o contrário. O transporte foi financiado pela ANQEP num projeto financiado pelo PRR.
INFORMAÇÃO CIR (Escrito por Rádio Terra Quente)
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