A Cadeia de Informação Regional de Trás-os-Montes e Alto Douro (CIR) nasceu a 14 de setembro de 1997 e completou 29 anos na passada segunda-feira.
Atualmente, a CIR é constituída por quatro rádios locais: a Universidade FM, sediada em Vila Real, a Rádio Terra Quente, em Mirandela, a Rádio Onda Livre, em Macedo de Cavaleiros e a Rádio Montalegre, de Montalegre.
A cadeia transmite dois noticiários diários, às 12h30 e às 18h30, cuja edição é assegurada semanalmente, de forma rotativa, pelas rádios parceiras. Aos sábados, às 10h00, é ainda emitido um semanário com os principais acontecimentos da região.
O principal objetivo da criação desta cadeia informativa foi alargar a cobertura jornalística aos distritos de Vila Real e Bragança e unir esforços perante as limitações das redações locais, muitas vezes com poucos meios e recursos humanos, explicou João Faiões, diretor de informação da Rádio Brigantia e um dos responsáveis pelo projeto, à época.
Considerado pioneiro no país, o projeto jornalístico foi apadrinhado por Arons de Carvalho, então secretário de Estado da Comunicação Social, que marcou presença no lançamento da CIR.
No início deste ano, o número de rádios parceiras foi reduzido, mas o principal objetivo do projeto mantém-se, como explica o diretor da Universidade FM, Luís Mendonça:
“Aquilo que achávamos que era positivo há 30 anos faz ainda mais sentido hoje, num mundo cada vez mais global. É cada vez mais importante sabermos o que se passa no nosso território de Trás-os-Montes e Alto Douro e, da mesma forma, quem está do outro lado, neste caso em Bragança, saber o que acontece em Vila Real.
Parece-nos, por isso, muito importante dar continuidade a este projeto, que tem muitas outras vantagens, nomeadamente ao nível da cobertura dos próprios territórios. As rádios têm cada vez menos pessoas a trabalhar e, desta forma, conseguimos ter uma redação maior do que a própria rádio, porque acabamos por ter jornalistas não apenas no nosso território, mas também nos territórios adjacentes. Assim, conseguimos cobrir Trás-os-Montes e Alto Douro de uma forma diferente.
Considero muito importante continuarmos a trabalhar em conjunto. Estou ligado ao associativismo das rádios há 30 anos e sempre defendi a união, a partilha de conteúdos e até a possibilidade de partilharmos entre nós as nossas mais-valias e os recursos humanos.”
O diretor da Universidade FM recorda que a estação entrou na parceria cerca de um ano após a criação do projeto:
“Nós, em Vila Real, entrámos talvez um ano depois de o projeto ter começado. Havia outra rádio que fazia parte do projeto em Vila Real, mas depois saiu. Houve uma aproximação e acabámos por entrar porque achávamos que fazia sentido as pessoas de Vila Real saberem o que se passa em Bragança e as de Bragança saberem o que acontece em Vila Real. A ideia era criar uma ligação mais forte entre os dois distritos.”
O coordenador de programação da Rádio Terra Quente, Fernando Sérgio, sublinha que, na altura, o projeto foi inédito e inovador, não existindo nada semelhante no país. Ao longo dos anos, o modelo chegou mesmo a ser replicado por outros operadores de rádio, permitindo dar uma nova abrangência à cobertura local e regional.
Quase três décadas depois, a confiança no projeto mantém-se.
“Nós acreditamos no projeto desde a primeira hora, com o empenho total de servir a população e as pessoas da região transmontana. Acreditamos que é um projeto único e coeso, que se mantém.
Continuamos a acreditar no projeto e estamos cá com a mesma força e vontade de sempre. Continua a ser, como no primeiro dia, muito importante para a nossa região como um todo.”
Também o diretor da Rádio Onda Livre, Joaquim dos Santos, considera que continuam a existir vantagens em fazer parte do projeto, tal como há 29 anos.
“Só vejo vantagens, não vejo inconvenientes. Há vantagens em fazermos parte de um grupo de trabalho no qual estamos envolvidos desde o início. O projeto continua a ser o mesmo.“
Ao longo das últimas décadas, as rádios locais têm alcançado várias conquistas ao nível da sua sustentabilidade e do reconhecimento do papel que desempenham nos territórios. Nos últimos dois anos, algumas dessas mudanças resultaram também do trabalho desenvolvido pela Associação Portuguesa de Radiodifusão (APR).
Luís Mendonça, que é também presidente da APR, destaca a criação de apoios específicos para as rádios, nomeadamente uma linha de 300 mil euros destinada a estações afetadas por situações de intempérie.
“Finalmente, nos últimos anos, sobretudo nos últimos dois, vemos que os responsáveis políticos perceberam que as rádios são importantes e começaram a olhar para elas de outra forma. Isso começa agora a traduzir-se em medidas práticas.
Quando há tempestades, e são situações que acontecem cada vez mais, a rádio era uma das componentes que não tinha qualquer apoio. Pela primeira vez, este ano, passámos a ter um programa destinado às rádios afetadas pelo mau tempo.
As rádios afetadas puderam candidatar-se a um programa do Governo, com uma verba de 300 mil euros. Isso representa uma grande vitória para as rádios, porque nunca tinham tido um apoio desta natureza.”
Outra das reivindicações das rádios locais esteve relacionada com os tempos de antena. Desde 1 de julho deste ano, o regime passou a abranger também as eleições presidenciais e legislativas e os referendos nacionais.
“Este ano foi também aprovada uma lei que permite que, quando há eleições, as rádios locais possam transmitir tempos de antena e receber um valor financeiro por esse trabalho.
Existia uma discriminação entre as rádios nacionais, as televisões nacionais e as rádios regionais, que tinham direito a esse valor, enquanto as rádios locais não tinham.
Passámos agora a ter também esse direito, que reivindicávamos há muitos anos. Alguns ouvintes talvez se recordem de campanhas eleitorais que nos recusámos a cobrir como forma de mostrar aos responsáveis políticos o nosso descontentamento.
Finalmente, essa alteração foi aprovada, promulgada pelo Presidente da República e publicada. No próximo momento eleitoral, as rádios locais já poderão beneficiar dessa mais-valia relacionada com a transmissão dos tempos de antena.
As rádios acompanham deputados e candidatos, realizam entrevistas e debates e fazem toda essa cobertura. Faz sentido que também possam ser ressarcidas pela transmissão dos tempos de antena.”
Luís Mendonça acrescenta que a APR encara com satisfação esta mudança na forma como as rádios locais têm vindo a ser consideradas nas decisões políticas. Entre as medidas previstas está também uma linha de financiamento destinada à modernização e reforço da capacidade de resposta das estações.
“Há uma forma diferente de olhar para as rádios, que a Associação Portuguesa de Radiodifusão encara com muita satisfação. Temos também inscritos 18 milhões de euros para as rádios se poderem candidatar e ficarem mais preparadas para situações de intempérie, permitindo, por exemplo, adquirir um gerador, um emissor novo ou uma antena nova.
Esta linha deverá surgir também, em princípio, até ao final do ano. É um programa de apoio que nos vai permitir reforçar as rádios. Passámos muitos anos sem este tipo de apoios, mas mais vale tarde do que nunca. Finalmente, os responsáveis políticos perceberam a importância que as rádios têm para uma construção mais equilibrada do território.”
Ao fim de 29 anos, a Cadeia de Informação Regional mantém a aposta na partilha de informação e na cobertura conjunta de Trás-os-Montes e Alto Douro, através de um meio de comunicação que continua a fazer companhia a milhares de pessoas, muitas delas em territórios mais isolados, e que permanece ligado à proximidade com as comunidades.

