Investigadores apontam estratégias aos viticultores para melhorarem a produção de vinho

O segundo dia da I São Pedro Agro Summit foi dedicado à fileira do vinho. Na parte da manhã, decorreu uma palestra que abordou os desafios para a viticultura e sobretudo os cenários de mudanças por causa das alterações climáticas, como explica António Castro Ribeiro, professor e investigador do IPB:

“No contexto desta apresentação, vamos falar sobre os principais desafios, que os viticultores estão a ser confrontados com um cenário de alterações climáticas. Portanto o que nós temos vindo a assistir é um aumento da temperatura média global, uma diminuição da precipitação, um aumento da frequência e severidade de ondas de calor.

E tudo isso, coloca desafios no contexto da viticultura. Portanto, vai fazer com que os viticultores terão que implementar diferentes tipos de estratégias para mitigar esses efeitos das alterações climáticas a vários níveis e no contexto desta apresentação vão ser abordadas algumas que os viticultores terão de implementar fruto deste clima que está efetivamente em mudança”.

Para isso, os produtores poderão usar um conjunto de estratégias, umas a adotar a curto prazo e outras a longo, como acrescenta o professor:

“Podemos dividir as estratégias em dois tipos: as de curta duração e as de longa duração.

As de curto prazo que eles podem implementar desde já, que até alguns viticultores já começaram a implementar. Que passam por, por a alteração da forma de condução, aplicação de protectores foliares, diferentes tipos de poda e gestão do solo.

Já as de longo prazo, estamos a falar, de adoção de novas castas, deslocação das vinhas, plantação em diferentes orientações”.

E explica quais as castas autóctones que se poderiam implementar no nordeste transmontano:

“No que diz respeito a castas de vinho branco estamos a falar da bual, o bastardo branco, salões de samarrinho, são três tipos de castas que estão a ser alvo de avaliação. 

Nas castas tintas estamos a estudar castas que nalgumas subregiões de Trás-os-Montes já têm alguma importância como a tinta gorda, no planalto mirandês, o cornifesto, bastardo tinto, tinto cão. Portanto, outras castas que neste momento são minoritárias na região. E enfim, é nosso objetivo, no contexto destes estudos que estamos a realizar avaliar o seu potencial, para futuramente poderem ser plantadas.”

Como não poderia deixar de ser, também foram abordados os problemas mais recorrentes na vinha: o míldio, o oídio e a podridão das uvas, por Sandrina Heleno, também ela investigadora:

“Eu vou explicar um projeto que temos desenvolvido no IPB. Porque nós só conseguimos ter bom vinho, se tivermos boas vinhas e boas uvas, ou seja, vinhas saudáveis. Vou expor, essencialmente, o trabalho conjunto entre o IPB, a Sogrape, a Deifil, a ADVID (Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense), João Nicolau de Almeida & Filhos, em que o nosso objetivo é desenvolver soluções naturais para combater patogénicos da vinha, como é por exemplo, o míldio, o oídio, e a podridão cinzenta das uvas.

Neste projeto conseguimos, ao fim de 23 meses, uma solução, um protótipo, composto por mistura de plantas completamente naturais, que nos permitiu reduzir em 30% o uso de fungicidas artificias que todos nós sabemos que são tóxicos para o ecosistema e até para o próprio aplicador destes agentes. 

Uma outras das comunicações apresentadas esteve a cargo de Filipe Carvalho, da empresa Tree Flowers Solutions, uma empresa, criada a partir de um estudo e projeto do IPB, que registou uma patente internacional do produto que a partir da flor do Castanheiro é criado um ativo que substitui os sulfitos.

“Dessa patente e como muitas vezes acontece, às vezes de uma forma leviana, as academias e as universidades são muito boas a descobrir conhecimento, mas a transformar em negócio são muito más. Este é um caso diferente, em que a Universidade descobriu o produto, desenvolveu a patente e depois convidou a Tree Flowres. A empresa na altura não existia, em que ex-alunos do IPB se juntaram, e criou-se essa empresa, que desenvolve o produto mais refinadamente. Agora já chegámos a um produto mais concentrado, este tanino enológico. Estamos a falar de mais de 5 anos de estudo e de testes.”

Mas a novidade é que este ano já estão prontos para comercializar:

“Mas este ano em concreto, vai ser o nosso primeiro ano a nível comercial. Só agora é que construímos a nossa nave, na Zona Industrial de Bragança. E estamos preparados agora para comercializar o produto. Até agora só tínhamos andado a fazer testes, com pequenas quantidades.  Agora já temos stock para chegar a outros mercados. Não vamos ter ainda quantidades ilimitadas, mas vamos fazer mais testes e ensaios em Portugal, Espanha, Itália, Hungria, França. Há muitos países que nos estão a abordar para trabalhar com este produto, porque estão curiosos. E muitos produtores que já utilizaram na primeira vindima, principalmente em Portugal, já estão, na segunda e na terceira, porque já se sentem confortáveis com este produto e já viram que funciona e estão muito contentes com os resultados”.

O auditório da Associação Comercial e Industrial de Macedo de Cavaleiros contou com cerca de 50 participantes, entre especialistas, produtores e trabalhadores da área do vinho. Recorde-se que a I São Pedro Agro Summit, este ano, é uma das novidades do programa da Feira de São Pedro, que decorre em Macedo de Cavaleiros. E a sua realização tem o objetivo maior de aliar a investigação científica e partilha-la com os especialistas das áreas de vários produtos endógenos.

Escrito por ONDA LIVRE