Jornadas Micológicas de Vale Pradinhos juntaram número recorde de participantes

A seca atrasou a proliferação de cogumelos este ano mas a chuva que veio nos últimos dias faz prever que dentro de cerca de uma semana irão nascer em massa na região.

No entanto, a vinda tardia faz com que o seu aparecimento aconteça num período mais frio, o que para algumas espécies não é bom, explica o biólogo Carlos Ventura:

“Há espécies que precisam de algum frio para ativarem os próprios micélios. Outras espécies, que são mais heliófilas e termófilas, que gostam de temperaturas mais elevadas, com estas geadas obviamente que deixam de despoletar.”

O que continua a ser um problema sem luz verde à vista é a falta de legislação e certificação dos cogumelos silvestres em Portugal. Quem os apanhar cá e quiser certificar, tem de ir a Espanha, passando a ter um produto, legalmente, de origem espanhola.

Esta é já uma luta antiga, até porque a legislação seria benéfica para todos, justifica Carlos Ventura:

“Acho que isto deveria ser uma atividade com regulação, em que os governantes se lembrassem que é uma mais-valia para os portugueses, inclusivamente para as finanças portuguesas que estão descapacitadas de verbas. Com regulamentação específica, se calhar aquilo que se pagaria por uma licença de recolha de cogumelos daria, em termos secundários, para pagar a guardas florestais e pessoas a quem se pudesse dar emprego e estar a fazer uma vigia perfeita do sistema.

Isso depois vai acontecer como acontece todo anos, por mais que tenhamos meios, há sempre incêndios.”

Gonçalo Martins tem um armazém em Bragança onde produz cogumelos, que vende para minimercados, restaurantes e particulares. Por ano produz cerca de 1500kg de cogumelos.

Conta que o consumo deste produto tem vindo a crescer mas ainda há um longo caminho a percorrer para que seja mais utilizado:

“Há 10/15 nos atrás já tínhamos o consumo de 100 gramas per capita, ou até menos. Agora talvez já estejamos com um consumo de 300 gramas per capita, o que ainda é pouco quando comparado com a Holanda, por exemplo, onde se consomem 8 kg per capita, ou com a Espanha, onde o consumo é de 1,5 kg per capita.

Penso que ainda há muito a fazer para que as pessoas ganhem mais o hábito de consumir cogumelos, como fazer mais ações de formação, apanhas e ensinar às pessoas os métodos de apanha e conservação.

A nossa vizinha Espanha ganha muito dinheiro com os cogumelos fazendo turismo micológico.

Ainda há muito a fazer, devido a não haver legislação.”

Declarações à margem das VIII Jornadas Micológicas de Vale Pradinhos, no concelho de Macedo de Cavaleiros, que este ano juntaram um número recorde de participantes, a superar os 200, de vários pontos do país e até do estrangeiro.

Por lá encontrámos Sónia Geraldes, Grão-Mestre da Confraria Ibérica da Castanha.

Os castanheiros e os cogumelos têm uma forte ligação ecológica, visto que há muitos cogumelos, com interesse gastronómico, que frutificam naquela árvore.

A falta de chuva, que afetou drasticamente a produção de castanhas este ano, também afetou estas espécies micológicas:

“Em termos de produção de castanha, temos zonas onde a quebra está na ordem dos 80% a 90%, e num ano onde o regime de precipitação fica muito aquém daquilo que é o normal, isso tem reflexos, quer na produção de castanha, quer também na anormal frutificação dos cogumelos.

Temos a esperança que, ao contrário da castanha, que sabemos ser uma situação completamente irreversível, que a meteorologia das próximas semanas ainda seja favorável à frutificação da maioria das espécies que estamos habituados a colher nos soutos. “

Entre os participantes encontrámos também Gabriela Santos, que é brasileira mas vive em Bragança. Trouxe o marido e a sogra às Jornadas Micológicas de Vale Pradinhos porque considera importante para aprender a reconhecer as espécies comestíveis que podem ser encontradas no campo:

“Gosto mais por mostrar um pouco da tradição daqui da aldeia e do ensino que eles dão acerca dos cogumelos que são encontrados no campo.

No Brasil não havia atividades destas, tinha de pesquisar na internet ou ir ao supermercado comprar.”

Outro dos participantes foi António Teixeira, que veio de Cabeceiras de Basto, já na zona do Minho, onde organiza um evento semelhante.

Fez este ano uma parceria com a associação de Vale Pradinhos que permitiu trazer alguns participantes daquela zona.

Conta que as espécies não diferem muito em ambas as regiões:

“Tinha conhecimento que aqui há muitas espécies iguais, mas como em Cabeceiras de Basto, que já é no Minho, há mais humidade e a vegetação é um pouco diferente da daqui.

Penso que lá haja mais espécies do que aqui mas, no fundo, os comestíveis são praticamente os mesmos.

Este ano há menos, principalmente os boletos, que já deveriam ter nascido há mais tempo e este ano estão muito atrasados. Penso que tenha sido por causa da seca e das alterações climáticas.”

As jornadas micológicas de Vale Pradinhos são organizadas pela Associação Cultural, Desportiva e Recreativa da aldeia. De acordo com o presidente, tem-se verificado que, na véspera do evento, algumas pessoas vão colher cogumelos, pondo em risco a apanha coletiva que, habitualmente, dá início às jornadas. Por isso deixa um apelo:

“Apelava, mais uma vez, à consciência das pessoas, que respeitem o nosso trabalho porque isto demorou a atingir este patamar e sinto-me desiludido, porque até pessoas da própria aldeia foram apanhar cogumelos no dia anterior, não respeitando o nosso trabalho.

No próprio dia também houve quem fosse apanhá-los e não participaram do evento.

Mas isso não nos faz desistir.  Ainda assim houve muitos cogumelos, mais do que contávamos.”

O número crescente de participantes já faz com que a sede da associação seja pequena para os acolher:

“Foi o ano em que tivemos mais gente e as instalações já são pequenas.

Estamos a pensar em ampliá-las, fixas ou móveis, por causa destes eventos.”

Uma das atrações das jornadas é a já afamada açorda de cogumelo, que a organização rotulou como “a maior do universo”, que este ano cresceu ainda mais, levando uma quantidade superior a 150 kg de cogumelos.

Escrito por ONDA LIVRE

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