Pelo segundo ano consecutivo, está-se a registar uma quebra acentuada na produção de azeite.
De acordo com o presidente da APPITAD, a Associação de Produtores em Proteção Integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro, Francisco Pavão, à semelhança do ano passado, a qualidade da azeitona não foi afetada mas a quebra chega em alguns casos a 50% e o aumento de preços não vai compensar a perda:
“Do ponto de vista agrícola é um ano bastante mau, praticamente para todas as culturas agrícolas aqui da região.
No caso concreto do azeite continuamos com uma quebra de produção muito acentuada. Este ano ainda há produtores a iniciar mas tivemos, tal como o ano passado, entre 40% a 50% de quebra, o que é muito mau para a economia local, pois aqui as populações, sobretudo da zona da Terra Quente Transmontana, vivem da azeitona e do azeite e este é o segundo ano consecutivo em que têm muito baixas produções.Paralelamente a isto, este foi um ano em que os fatores de produção aumentaram muito, como o gasóleo, os fertilizantes, portanto, aumentou tudo e a produção é bastante baixa.Podemos pensar que os preços que se apontam irão ser compensadores, mas nunca o serão porque a quebra de produção é muito superior àquilo que é o aumento dos preços.”
Na origem do problema estão fenómenos climáticos, como a seca extrema, cada vez mais frequente e preocupante para os produtores:
“Já o ano passado vivemos um ano de seca extrema. Este ano havia menos flores, depois tivemos um calor extremo, na altura de floração, que motivou um grande abortamento. Tivemos temperaturas em maio, na zona da Terra Quente, entre os 30/35ºc, o que levou a um grande abortamento por parte das plantas e depois também porque atravessámos um período de seca bastante prolongado.
Felizmente estas chuvas, a partir de setembro, vieram acalentar e, sobretudo, permitir que a azeitona ganhasse uma forma e passasse a ser possível colhê-la.Agora o que temos são ciclos muito mais curtos, foi há três anos, o ano passado e neste ano também.”
De acordo com Francisco Pavão, os agricultores têm de se adaptar à nova realidade, com novas práticas agronómicas e, nesse sentido, a APPITAD, em parceria com a UTAD, tem desenvolvido alguns projetos de forma a apoiar os produtores em novas técnicas.
No entanto, a falta de estruturas para armazenar água também é um problema:
“Agora temos de aprender a mitigar os efeitos das alterações climáticas, deixando de mobilizar e apanhando mais cedo.
Os agricultores têm vindo a alterar as suas práticas e, sobretudo, temos uma grande necessidade de água. Não temos falta de água de precipitação mas sim uma grande necessidade de estruturas de armazenamento, que permitam colmatar os períodos de carência.Infelizmente temos tido períodos de seca prolongada e depois de chuva prolongada. Temos de saber armazenar a água durante a chuva prolongada para utilizar durante a seca. Precisamos de criar na região microestruturas de armazenamento de água.Hoje em dia, com o conhecimento técnico, regamos muita mais área com muito menos água. Temos um conjunto enorme de sistemas de regadio que utilizam novas tecnologias e não há ninguém que saiba mais o custo da água do que um agricultor que precisa dela todos os dias para ajudar as suas culturas crescer.”
De acordo com o presidente da APPITAD, a solução passa pela criação de um plano intermunicipal de regadio:
“Precisamos de um Ministério do Ambiente muito mais tolerante no que concerne a esta questão.
Temos de criar um plano, não só estruturado para os agricultores, mas também um plano intermunicipal/regional de regadio. É preciso criar estruturas coletivas de regadio, pois não faz sentido que cada agricultor crie, por si, uma estrutura. Temos de criar estruturas novas e reabilitar as já existentes, tornando-os mais eficientes.Criar estruturas de armazenamento onde não as há, sejam elas públicas ou parcerias público-privadas.”
Num ano normal, Trás-os-Montes é responsável pela produção de entre 13 a 15 mil toneladas de azeite.
O preço do azeite também vai continuar a subir, sendo expectável que chegue aos 10 euros por litro.
Escrito por ONDA LIVRE
