É um aviso agora reforçado pelos criadores de gado caprino mais antigos: na próxima década “pode estar em risco de extinção a raça da cabra serrana transmontana” que dá origem a produtos de excelência, como o queijo e o cabrito transmontano, ambos com Denominação de Origem Protegida (DOP).
A idade avançada dos criadores e os escassos incentivos do Governo para apoiar os mais jovens a enveredar por esta atividade, podem determinar o fim desta raça autóctone.
O aviso já tinha sido lançado, há alguns meses, pelo presidente da Associação Nacional de Caprinicultores de Raça Serrana (ANCRAS), quando falava que a produção de leite já não chegava para as encomendas do queijo de cabra serrana DOP, devido à diminuição de animais provocada pelo abandono da atividade de vários criadores. João Silva diz agora que, pontualmente, “está a melhorar um bocadinho, porque nesta altura da primavera há sempre mais leite, mas ao chegarmos a agosto/setembro, vamos voltar ao mesmo problema”, admite.
Esta situação, está diretamente ligada “à idade avançada dos criadores que está a levar ao abandono da pastorícia”, acrescenta.
António Martinho, é de Junqueira, no concelho de Vimioso, tem 64 anos, é guardador de cabras desde os 12. Tem 180 cabras. São companheiros de longas distâncias porque esta raça serrana exige que se façam quilómetros sem conta, 365 dias por ano. “Uma pessoa levanta-se às cinco da manhã, vai para casa à meia-noite, todos os dias é o mesmo, não tenho um dia de folga”, conta.
Além das longas caminhadas para as alimentar, há ainda a ordenha que não pode esperar. E por ser uma vida de sacrifício, admite já ter “poucas forças para aguentar por muito mais tempo”, lamentando que os jovens não queiram enveredar por esta atividade. “ Querem mas é estar nos cafés”, afirma.
Também Arlindo Neves, de Nogueira da Montanha, em Chaves, não augura nada de bom para o futuro da raça serrana e por consequência para o queijo de cabra e a carne de cabrito transmontano, ambos produtos DOP. “Há 20 anos, quando comecei com a Cabra Serrana, desistiram mais de 25 pessoas na zona, porque os jovens querem cada vez menos isto, os apoios também não são eles tantos, é uma vida um bocado ingrata”, admite.
Arlindo entende que esta não é uma atividade “muito atrativa” para os mais jovens por falta de apoios. “Qualquer jovem que queira iniciar uma atividade, são precisas certas condições com um custo muito elevado, e não é fácil fazer um estábulo, comprar tratores. Um jovem começar do zero, sem meios, se não tiver apoio de algum familiar, não é fácil”, diz.
O Governo abriu recentemente um aviso para candidaturas a um programa de apoio a novos produtores, mas o presidente da ANCRAS deixa duras críticas ao processo. “Fomos enganados”, conta João Silva. “Aconteceu uma medida para novos produtores com abertura às 10 horas e quatro minutos depois fechou. Davam 30 mil euros para a instalação dos novos produtores, mas nem sei se alguém conseguiu fazer, nós não conseguimos”, lamenta.
CONCURSO COM FRACA ADESÃO
E o abandono de vários criadores de cabras de raça serrana também se fez sentir, este domingo, no 34º concurso da Cabra Serrana, promovido pela ANCRAS, em Mirandela. Marcaram presença, apenas uma dezena de criadores. “Já não é o que era. Já tivemos concursos com 20 sócios e nesta altura temos 10 ou 12, porque já são idosos e também não têm carros, têm de andar a pagar fretes, é difícil”, adianta João Silva
Ainda assim, o vereador do Município de Mirandela, Luís Saraiva, entende que este tipo de iniciativas “podem ajudar a dinamizar o setor, fazendo com que isto incentive os novos jovens a poderem suportar as suas carreiras nisto, conseguindo desviar a tendência decrescente que tem vindo a acontecer”, acrescenta.
A 34ª edição do concurso da Cabra Serrana Transmontana a servir de mote para mais um grito de alerta para a falta de apoios para manter esta raça autóctone.
INFORMAÇÃO CIR (Escrito por Rádio Terra Quente)
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