Associação Lutar pelo Douro espera medidas concretas do Governo para o setor

Quase 400 quilos de uvas foram despejados à porta do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), num protesto simbólico para alertar para as dificuldades dos viticultores, sobretudo no escoamento da produção.

A ação foi promovida pela Associação Lutar pelo Douro, sediada em Ervedosa do Douro, que representa agricultores da região demarcada e regulamentada mais antiga do mundo.

Joaquim Monteiro, da associação, explica que o principal objetivo é alertar as entidades governativas para os problemas que os viticultores atravessam:

“Isto foi um ato simbólico para alertar o Governo e as entidades regionais, nomeadamente a CIM Douro, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP) e a própria Casa do Douro, que está em total inércia.

Os lavradores estão muito descontentes e existem situações muito graves. Por aquilo que ouço, se algo não for feito, os viticultores não têm onde pôr as uvas. E isto vai correr muito mal.”

Ainda com alguma esperança, o também viticultor acrescenta que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, estará amanhã na inauguração da Vindouro e poderá trazer novidades para o setor.

A Vindouro é uma das principais feiras de vinhos do Douro. A inauguração está marcada para as 18h30 e deverá contar também com a presença do ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes.

Para já, a associação considera que quaisquer medidas que venham a ser apresentadas serão vistas como uma resposta intermédia, não como a solução ideal. Ainda assim, sublinha que qualquer apoio será bem-vindo perante a crise que o Douro atravessa:

“Parece que amanhã vem cá o primeiro-ministro inaugurar a Vindouro e traz notícias.

Estou expectante? Sim, estou. Não é nada que nos ajude muito, mas, pelo menos, é capaz de ajudar as empresas a ficar com as uvas que não queriam, forçando o apoio à aguardente para a destilação.

Não é a medida pretendida, mas é uma medida intermédia que ajuda. Nunca cobre o preço do custo de produção.”

A crise dos viticultores no Douro resulta da queda acentuada do preço das uvas, das dificuldades em escoar a produção e do aumento expressivo dos custos de produção.

Joaquim Monteiro refere que os preços estão desatualizados há mais de 30 anos e exige a manutenção da qualidade:

“Porque nós produzimos vinho do Porto com aguardente espanhola, que não se sabe de que origem é. Pode ser de beterraba, de batata ou de outro produto.

Nós queremos um produto genuíno do Douro e que seja efetivamente nosso, genuíno. A Denominação de Origem está em causa, assim como está em causa o Douro Património Mundial.

É isso que queremos. Queremos, efetivamente, que os preços praticados cubram os custos de produção e queremos que o vinho seja feito com aguardente de uvas do Douro.”

O benefício da campanha deste ano foi fixado em 76 mil pipas de mosto, com 550 litros cada. Está ainda prevista a atribuição à Casa do Douro de capacidade para estabilizar os stocks de vinho e a compra, pelo Estado, de pelo menos 115 mil pipas de excedentes.

Ainda assim, a Associação Lutar pelo Douro considera estas medidas insuficientes:

“Esta gente pensa que os durienses são tolinhos, que são pessoas que não têm cabeça, mas têm.

75 ou 76 mil pipas é-nos indiferente. Em 2022 ou em 2023 foram 104 mil e venderam-se. Sabemos que o mundo está em guerra, que está pior e que não se vende tanto, mas eles não têm feito nada.

O grande problema é que os exportadores do vinho do Porto e as grandes empresas começaram a querer ganhar dinheiro vendendo muito a baixos preços.

E desequilibraram o mercado, prejudicando a Denominação de Origem Porto, porque as pessoas agora bebem um vinho que não vale nada e dizem que isto não é vinho do Porto, é uma zurrapa.

E foram eles, com a política dos preços baixos, para ganhar muito dinheiro e vender mais, que deram cabo da Denominação de Origem Porto. Eles ganham dinheiro e nós recebemos sempre o mesmo.”

O benefício tem vindo a cair nos últimos anos, passando de 104 mil pipas, em 2023, para 90 mil, em 2024, e 76 mil, em 2026.

Os viticultores dizem não saber a quem vender as uvas. Segundo a associação, muitos apenas têm assegurada a venda das uvas destinadas ao benefício e, em alguns casos, há empresas que nem sequer estão a comprar as uvas beneficiadas.

Recorde-se que o Parlamento aprovou, a 17 de julho deste ano, a criação da medida “uva para destilação 2026”, a partir de uma recomendação do partido Juntos Pelo Povo (JPP).

A recomendação foi aprovada com os votos favoráveis do PSD, Chega, PS, Livre, PCP, CDS-PP, BE, PAN e JPP, e com a abstenção da IL. O principal objetivo é ajudar os viticultores através da valorização dos excedentes.

A proposta do JPP pretende recuperar, para a vindima deste ano, uma medida aplicada em 2025, em regime de apoio reembolsável, destinada à valorização dos excedentes vitivinícolas da Região Demarcada do Douro e à proteção do rendimento dos viticultores.

Apesar de a Assembleia da República já ter aprovado a implementação de medidas semelhantes, até ao momento ainda não houve concretização.

A medida de destilação de crise foi considerada insuficiente pelo setor, mas permitiu algum alívio aos viticultores.

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