Foi em Alfândega da Fé que a fé, a religião e a espiritualidade se cruzaram numa reflexão sobre a missão da Igreja no mundo digital, durante o 1.º Encontro Nacional dos Missionários Digitais.
O evento decorreu este sábado, numa organização da recém-criada Rede Nacional dos Missionários Digitais e da Fundação Cónego Manuel Joaquim Ochôa, com o apoio do Município de Alfândega da Fé.
A iniciativa, que teve como objetivo abrir as portas da Igreja ao mundo digital, reuniu mais de uma centena de participantes e convidados nas sessões de reflexão. A organização contabilizou ainda cerca de três mil inscritos no conjunto do evento, que terminou com o concerto do padre Guilherme Peixoto, conhecido como Padre DJ.
O presidente da Comissão Organizadora, padre Manuel Ribeiro, faz um balanço positivo deste primeiro encontro, que pretendeu provocar a reflexão e inquietar consciências perante os novos desafios do digital:
“A avaliação é muito, muito positiva. Conseguimos ter a casa cheia no auditório, com imensa gente.
Acho que o mais importante de tudo foi conseguir sentar, pela primeira vez, à mesa, e juntos, quem trabalha na área da comunicação, no digital, na nossa Igreja. Desde redações, produtores de conteúdos, influencers, também a presença de membros da Santa Sé e na área digital, o trabalho que é feito na Igreja a nível internacional.
E conseguir ter esta ousadia, todos sentados, começarmos a pensar o fenómeno e daqui conseguirmos emanar um documento, que depois queremos que possa ser levado a sério e estudado como um contributo, em estilo e em espírito de solidariedade, para que a Igreja portuguesa possa refletir e considerar aquilo que é oportuno, para construirmos um caminho nesta área.
No fundo, seguir aquilo que é o desejo do Santo Padre, Papa Leão XIV, no ano passado, no Jubileu dos Influencers e Missionários Digitais, como também com a nova encíclica que este ano saiu da sua mão própria.”
Em jeito de balanço, o sacerdote destaca ainda o número de participantes, superior ao número de habitantes da vila transmontana:
“Nós tivemos três mil inscritos. Esperamos que agora, durante a noite, também possam estar mais.
Não é o número, mas são aqueles que quiseram estar. Claro que, para um território de baixa densidade como o nosso… E repare, esta vila tem dois mil habitantes e temos aqui três mil pessoas. Superámos aquilo que é a própria vila.
É um número que, se calhar, num grande polo como Lisboa ou Porto, não era nada, era residual. Mas, para nós, pela distância, demografia e geografia, ter aqui estas pessoas já valeu a pena.”
O presidente da Câmara Municipal de Alfândega da Fé, Eduardo Tavares, sublinha a importância de a autarquia se associar a este evento, considerando que a iniciativa contribui também para reforçar a identidade comunitária:
“De facto, é um desafio para todos nós, para os municípios, mas, principalmente e fundamentalmente, para cada um de nós, para as nossas famílias, para os nossos jovens, para as nossas escolas.
Hoje temos um ambiente digital complexo, difícil, complicado, que nos coloca vários desafios. E este primeiro Encontro de Missionários Digitais, que acontece em Alfândega da Fé, é, de facto, uma grande oportunidade para nós, também no âmbito da nossa comunidade, podermos discutir estes assuntos, que são muito importantes para a nossa atualidade e para o nosso futuro.
Obviamente, é importante que Alfândega da Fé também se associe a estas iniciativas, porque isso traz dividendos para a nossa economia, para as nossas associações, para o reforço da nossa identidade, para a galvanização dos nossos jovens e das nossas instituições. E é sempre muito importante.”
O autarca aproveitou ainda o momento para agradecer o empenho de todos os envolvidos na organização, desde o padre Manuel Ribeiro à Fundação Cónego Manuel Joaquim Ochôa e à Diocese de Bragança-Miranda, destacando a importância de trazer à discussão temas que afetam a sociedade, com particular atenção aos jovens:
“Que este encontro tenha permitido uma primeira reflexão importante, que vai ter continuidade. Já vimos hoje que vai ter continuidade e o próximo encontro vai ser em Évora.
Que se faça esta discussão aberta, de forma frontal, com todos os agentes que fazem parte das nossas comunidades e, especialmente, os nossos jovens, que são, de facto, o futuro da humanidade, do nosso país e da nossa comunidade.
É importante também acolhermos o apelo do Papa Leão XIV, que pede aos jovens missionários que haja aqui uma quebra da polarização, da divisão, que haja uma limitação de verdade e de esperança nas redes sociais. E isso é transversal a toda a humanidade e a todos nós.”
O evento teve início na Casa da Cultura Mestre José Rodrigues, com uma sessão solene de abertura, durante a qual D. Nuno Almeida, bispo da Diocese de Bragança-Miranda, leu uma mensagem do Papa Leão XIV, apelando aos missionários digitais para que não cedam à polarização.
D. Nuno Almeida aproveitou ainda o momento para desafiar quem utiliza os meios digitais a não permitir que a superexposição à dor dos outros conduza à indiferença.
Durante os trabalhos realizou-se também uma Conferência Magna, que contou com a presença de monsenhor Lucio Adrián Ruiz, secretário do Dicastério para o Serviço da Caridade do Vaticano, que destacou os espaços digitais enquanto locais onde se constroem relações, se partilham inquietações, se expressam feridas e se tomam decisões.
Seguiu-se a intervenção do padre mexicano Borre, responsável pela plataforma católica Ilumina Más, que defendeu a importância de uma Igreja próxima e atenta às feridas que as mensagens digitais transportam.
O programa incluiu ainda um Encontro de Redações, com a participação de órgãos de comunicação social portugueses ligados à Igreja Católica.
Estiveram presentes Daniela Espírito Santo, da Rádio Renascença, Paulo Rocha, da Agência Ecclesia, António Marujo, do jornal digital 7MARGENS, António Rodrigues, diretor do Mensageiro de Bragança, Verónica Brunkow, do Dicastério para a Comunicação, e Diogo Carvalho Alves, do Gabinete de Comunicação do Santuário de Fátima.
O Encontro de Redações promoveu uma reflexão sobre o espaço do jornalismo na atualidade, numa altura em que qualquer pessoa pode publicar conteúdos à distância de um clique, sem estar sujeita a um código deontológico e a princípios como o rigor, a verdade e a responsabilidade.
O espaço de reflexão terminou com os MD Talks e uma oração ecuménica pela paz no mundo digital, presidida por D. Nuno Almeida.
Na vertente mais lúdica do evento, o destaque foi para a atuação do padre Guilherme Peixoto, conhecido como Padre DJ, num espetáculo que cruza música eletrónica de dança com música religiosa.
No final, deixou também uma mensagem aos missionários digitais:
“O tema deste encontro era consertar as redes. Por isso, o primeiro desafio aos missionários, a quem está nas redes, é deixarmos que Deus nos conserte.
É por Ele que nós estamos aqui. É para O anunciar, é para O partilhar, com a nossa vida, às vezes com as nossas palavras, mas sobretudo com a nossa vida, com as nossas ações, com os nossos atos, com as nossas mãos estendidas.
É isso, consertar as redes. Não é procurar seguidores, não é ver quem consegue ter um algoritmo mais favorável. Não se trata disso.
Trata-se, sim, de estar nas redes como cristão. Em paz, em harmonia, evitando o ódio, a discórdia e a divisão.”
Durante o encontro foi ainda anunciado que a segunda edição do Encontro Nacional dos Missionários Digitais se realiza em 2028, em Évora, numa organização da Arquidiocese de Évora.
Fotografias: Nuno Fernandes
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