A falta de mão de obra continua a ser um dos principais problemas enfrentados pelos viticultores durante a campanha das vindimas, uma dificuldade que tem vindo a ser colmatada através da mecanização e também da colheita das uvas durante a noite.
Esta foi uma das estratégias adotadas este ano pela Casa José Pedro, marca de vinhos sediada em Valpaços, que possui cerca de 75 hectares de vinha.
O diretor-geral da Casa José Pedro, Marcos Lopes Paulo, explica que não houve uma renovação geracional que permitisse assegurar a transmissão do saber-fazer e que a aposta passa agora cada vez mais pela mecanização, que também apresenta várias vantagens:
“E nós combatemos essa falta de mão de obra com a ajuda da mecanização, com a máquina de vindima, em que trabalhamos com uma equipa a cortar as uvas à mão e, simultaneamente, temos a máquina a vindimar noutras parcelas.
Como devem saber, a janela de vindima decorre num curto espaço de tempo, entre a fase ideal para colher a uva e aquela em que se pode perder tudo.
Portanto, esta janela temporal é curta e, das duas, uma: ou teríamos que trazer 50 a 70 pessoas a vindimar diariamente, o que não é possível porque não as há, e, obviamente, olhando também para os custos, isso leva-nos a olhar para a mecanização.
Daí esta situação partilhada, digamos assim. Acabamos por ter os dois formatos.
Depois, a utilização da máquina de vindima permite-nos trabalhar de dia, naturalmente, mas, tendo em conta que estamos em Trás-os-Montes e as temperaturas altas que se têm feito sentir, acabamos por optar por vindimar à máquina durante a noite, porque as uvas entram na adega mais frescas.
Acaba por ser mais fácil também para quem está a operar a máquina e o rendimento é maior.”
O responsável sublinha que a intenção não é substituir a mão de obra pela tecnologia, mas colocar a mecanização ao serviço dos trabalhadores, permitindo complementar o trabalho realizado manualmente.
A vindima noturna é também uma das estratégias adotadas para fazer face às temperaturas elevadas, permitindo reduzir custos e aumentar a rentabilidade, acrescenta Marcos Lopes Paulo:
“A vindima noturna e mecanizada é feita por apenas duas pessoas, que fazem o mesmo trabalho, num ciclo de oito horas, para o qual precisaríamos de 40 ou 50 pessoas para fazer o mesmo serviço no mesmo período.
É importante haver aqui esta questão dos custos, que também é relevante. Portanto, há aqui vários assuntos dentro do mesmo tema.
Depois, também não teríamos o rendimento expectável, porque essas pessoas, a trabalhar das seis da manhã ao meio-dia, têm um rendimento, mas, se tivessem de trabalhar até às quatro ou cinco da tarde, teriam metade do rendimento, porque ninguém aguenta.
E essas pessoas não existem. Portanto, eu não conseguia arranjar uma equipa com esse número.”
Apesar da crescente mecanização, a Casa José Pedro mantém as duas formas de vindima, reservando a colheita manual sobretudo para as uvas destinadas aos vinhos de segmentos superiores:
“Então, conseguimos arranjar 15 ou 20 pessoas, mantê-las, queremos muito que elas trabalhem connosco.
Queremos muito apanhar uvas diferenciadas, porque, nos segmentos mais altos, nos vinhos de maior valor, nas grandes reservas, nos monocastas, continuamos a colher à mão, por decisão.
Entendemos que requer aqui um cuidado acrescido e que a mecanização ainda não está a esse nível mais elevado.”
Marcos Lopes Paulo garante ainda que a mecanização, quando realizada no momento adequado de maturação da uva, não representa uma perda de qualidade:
“Não há. É óbvio que, quanto mais avançada estiver, e por isso é que também temos uma equipa de enologia que faz muito bem os controlos de maturação para que tudo entre no momento certo.
A máquina suga os bagos e o pé fica na planta. A única coisa que é puxada para dentro da máquina são os bagos e, obviamente, se a película estiver muito sensível, se já estiver num estado muito avançado, vai haver rebentamento e vai haver mais líquido.
No entanto, não é por aí, imediatamente, que perdemos qualidade, até porque a nossa grande vantagem é que estamos a vindimar nas nossas parcelas e a adega fica contígua às parcelas. Portanto, há um curto espaço de tempo no transporte da uva para a adega.
Toda a questão da oxidação não tem relevância e não vai prejudicar o estado qualitativo.
No entanto, tentamos sempre, na parte mecanizada, colher as uvas que estejam num estado que permita que não haja esse tal rebentamento, para também não desperdiçarmos líquido.”
A vindima mecanizada e noturna é, assim, uma aposta crescente da Casa José Pedro, permitindo responder à falta de mão de obra, reduzir os efeitos das temperaturas elevadas e aumentar a eficiência da campanha, sem abandonar a colheita manual das uvas destinadas aos vinhos de maior valor.






