Idoso mete mãos à obra para reconstruir moinho que o viu crescer

Na semana em que se assinalou o Dia Nacional dos Moinhos, fomos conhecer Amândio Augusto da Costa, de 65 anos, que está há cerca de dois anos a reconstruir um antigo moinho movido a água, na aldeia de Bagueixe, no concelho de Macedo de Cavaleiros.

A história do Moinho do Peludo, que depois passou a ser conhecido como o Moinho da Rosa Moleira, mistura-se com a história de Amândio da Costa, ou simplesmente Amândio Moleiro.

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“Era o Moinho do Peludo. Depois compramos ao Peludo por 2 contos, que naquele tempo já era bastante dinheiro.

Depois ficou o Moinho da Rosa Moleira, que era a minha mãe, que há dois anos que faleceu no mês de dezembro.

Nós de pequenos fomos para França. O moinho ficou quase abandonado.

Agora no ano passado já lhe pus o telhado, os rodízios, mas ainda não mói bem à minha vontade.

Ainda vou ajeitá-lo melhor quando acabar a água. Agora há muita. E hei-de o por a moer com uma pedra albeira, que é onde se faz a farinha triga. Esta pedra que está aqui (refere-se ao Moinho das Olgas, também em Bagueixe) é uma pedra morneira, que moía para os pobres.”

Amândio Moleiro foi criado no moinho, que além de ser fonte de rendimento, era a residência dos sete elementos da família.

Aos 17 anos o destino levou-o para França.

Agora novamente em Bagueixe está há dois anos a reconstruir, sozinho, o moinho que o viu crescer.

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“Então nós vivíamos lá.

Vivíamos lá sete pessoas. O meu pai, a minha mãe e cinco irmãos.

Morávamos lá e vendíamos trigo de lá, das maquias para o celeiro, e fabricávamos terras também, malhadeiras e tudo mais.

Fui moleiro pouco tempo, porque fui com 17 anos para França. Mas fui desde que nasci até aos 17.

E agora estou a reconstruir o moinho há dois anos. Já se construiu um bocadinho. Pus-lhe um telhado, que estava tudo a cair. Já levei para lá uma máquina. Também máquinas cá não há.

Já paguei algum. Ainda não está á minha vontade, mas vai estar.

Tenho pena que os moinhos tenham caído em desuso. Dá-me pena quando olho para ali. Fui la que fui criado, quase. Tenho amizade àquilo.”

Para por um moinho a funcionar, era preciso, claro está, as pedras para moer o cereal.

Ora, na região transmontana não havia quem as fizesse, e por isso chegavam pela Linha do Tua, que parava em Sendas, no comboio de carga.

Outra das curiosidades que António Moleiro partilhou connosco.

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“O moinho de água é uma coisa simples. A água vai na calha, bate nos rodízios, que fazem andar a agulha. É um engenho simples.

A pedra albeira mói tudo.

As pedras tinham que se encomendar e vinham de Condeixa-a-Velha e Condeixa-a-Nova.

De Condeixa vinham de comboio, que parava em Sendas. Era o comboio de carga.

Encomendavam-se as pedras, iam-se lá escolher, e elas lá vinham.

Depois em Sendas iam carros de bois lá buscá-las. Bois bons, porque não havia tratores. E os caminhos para os moinhos não eram lá muito bonitos.”

Na aldeia de Bagueixe, em Macedo de Cavaleiros, estivemos à conversa com Amândio Moleiro, que está a reconstruir já há cerca de dois anos um dos antigos moinhos movidos a água que existiam na região.

Filho de moleiros, e também ele moleiro até aos 17 anos, antes de emigrar para França, onde permaneceu 43 anos, está agora de regresso, de mangas arregaçadas para reactivar parte da sua história.

 Escrito por ONDA LIVRE