A CP reestruturou o material circulante da Linha do Tua, “mantendo a base” e pondo em cima “estruturas muito mais parecidas com autocarros do que com comboios”

O professor brigantino Mário Vaz, que integrou a equipa responsável pela peritagem ao acidente da Linha do Tua de 2008, que fez uma vítima mortal e levou ao seu encerramento, refere que o que esteve na origem do descarrilamento foi a desadaptação entre o material circulante e a via e acusa a CP de falta de manutenção.

O docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e investigador do INEGI – o Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial, recorda a avaliação que foi à época por solicitação do ministério da administração interna e perante as condições de falta de manutenção ficou surpreendido por não ter acontecido um acidente fatal antes.

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“A determinada altura, resolveu reestruturam esse material circulante, para se adaptar aos novos dias, mantendo aquela que era a estrutura de base, e colocando em cima estruturas em fibra muito mais parecidas com autocarros do que com comboios.

Criou uma inadaptação entre das suspensões do material circulante e das suspensões do referido material e a via de caminho de ferro. Criou situações para descarrilamentos.

O facto de operar a baixas velocidades, funcionou como um anjo da guarda durante muito tempo.”

Para o especialista em engenharia mecânica, havia à altura capacidade para se avaliar a qualidade do serviço, no entanto, esse conhecimento nunca foi utilizada pela CP.

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“Nós tínhamos em Portugal a engenharia disponível para avaliar as condições da linha, como se verificou depois durante a fase de inquérito para avaliar a estrutura do material circulante, e saber se era, ou não, compatível com aquela via.

No entanto, a CP nunca recorreu a esses serviços, e foi improvisando, aqui e ali, até que aconteceu o acidente.

Nessa altura, fomos chamados, e o que se percebeu é que tinha havido um desleixo durante muito tempo. E o conhecimento que a CP tinha, que podíamos ver na Estação de Bragança, e nos funcionários, os chamados “chefes de lanço”, que andavam com um calibre, a pé, na via, para verificar se a distância entre os carris se mantinha. Isso acabou, e continuou-se a operar numa via quase sem manutenção.”

A opinião do professor e investigador da FEUP Mário Vaz, natural de Bragança.

Informação CIR (Rádio Brigantia)