Célia Fraga, natural de Vale da Porca, vence prémio literário Nortear com conto “Ganapos”

Célia Fraga, natural de Vale da Porca, vence prémio literário Nortear com conto “Ganapos”

Célia Fraga é natural da aldeia de Vale da Porca, em Macedo de Cavaleiros, e este ano foi a vencedora o prémio literário Nortear, com o conto “Ganapos”, que retrata a dificuldade de adaptação de dois jovens irmãos retornados em 1974 das ex-colónias em África para uma aldeia transmontana – Valverde, em pleno Parque Natural de Montesinho.

Mas este não é o único feito da jovem transmontana. Aos 31 anos, Célia Fraga também já deu cartas no cinema, destacando-se com a curta-metragem Cinzas, que teve estreia no Motelx – o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, em 2018.

A Onda Livre esteve à conversa com Célia Fraga que nos falou mais da sua vida e obra.

 

ROL – Uma aldeia transmontana, há 46 anos atrás e um drama que terá assolado muitos dos que naquela altura retornavam a Portugal depois de uma vida nas ex-colónias. O que te levou a escrever este conto? 

CF – O conto ocorre no verão de 1974 e revela a história de dois adolescentes que chegam a Portugal com a mãe vindos de Angola. Eles vão viver para uma pequena aldeia do nordeste transmontano, mais particularmente no norte do distrito de Bragança, na zona que atualmente é designada de Parque Natural de Montesinho. E a sua adaptação não é nada fácil. Eles passam por uma série de dificuldades e transtornos e é uma experiência bastante traumática.

O que me levou a escrevê-lo foi o facto de as histórias sobre retornados estarem muito concentradas em ambientes urbanos. Trata-se de um episódio bastante difícil na história portuguesa do século XX, pois muitos desses portugueses tiveram de regressar ao nosso país sem nada e a juntar-se a todas estas dificuldades de cariz financeiro, havia também alguma hostilidade e até desconfiança relativamente a estas pessoas que vinham de tão longe e que tinham hábitos e ideias tão diferentes. Não nos podemos esquecer que a opressão e a miséria que os portugueses tinham vivenciado no fascismo não terminou logo a seguir a abril de 1974. Perdurou, especialmente em aldeias tão isoladas e fechadas. Tiveram de libertar-se das correntes, respeitar o que é diferente e nem sempre este é um processo fácil.

Valverde é a aldeia fictícia na qual decorre a ação. O norte do distrito pareceu-me a mais indicada para esta história, pois, mesmo nos dias de hoje, conseguimos percorrer quilómetros e quilómetros do parque sem ver nenhuma povoação, nenhuma pessoa e eu acho isso maravilhoso. Eu vou com alguma frequência lá, porque é um sítio de excelência para descansar e usufruir da natureza. E foi esse lado mais ermo que me levou a escolher essa parte do distrito.

ROL – Esta história é um drama vincado pela mentalidade da sociedade da altura. Será que com este conto também tentas chamar a atenção para certos aspetos da sociedade, que ainda perduram?

CF – Essa é uma ótima questão. De facto, infelizmente, há alguns preconceitos que perduram, mas claro que estavam muito mais exacerbados em 74. Mas é dececionante constatar que estes continuam e que ainda há muito trabalho a ser feito para mudar mentalidades.

ROL – Esta é a tua estreia no mundo da literatura e o teu conto foi o escolhido entre 30 trabalhos. Alguma vez pensaste, enquanto escrevias esta história, que com ela irias vencer este prémio? O que significa para ti?

CF – Escrever não é fácil, é um exercício que para mim é muito prazeroso, porém é um trabalho árduo. Não sabia muito bem o que esperar, não tinha ideia de quem participaria, da qualidade dos outros contos. Tivemos de usar um pseudónimo para garantir a total imparcialidade do júri. Mas a realidade é que não sabia mesmo o que esperar deste concurso.

ROL – Voltemo-nos agora para o cinema. És licenciada em Ciências da Linguagem, mas, mais tarde, tornaste-te mestre em Realização em Cinema e Televisão. E neste momento já contas com duas curtas-metragens produzidas e prémios conquistados.

Destaque para a tua primeira produção, Cinzas, que embora tenha sido criada em contexto académico, estreou-se no Motex, venceu o prémio de melhor cinematografia no festival Internacional de Curtas-Metragens de Tomar, também conquistou o prémio do Público no Kalajoki Film Festival na Finlândia, foi vencedora no mês de fevereiro do Shortcutz Lisboa e recebeu uma menção especial criatividade no Fantasporto.

Falamos de uma história de terror passada no início do século XX, também ela transmontana.

CF –  O cinema é um sonho antigo, mas que foi concretizado um pouco mais tardiamente. A minha primeira curta-metragem, Cinzas, ocorre também em Trás-os-Montes, nos anos 40. Conta a história de uma jovem viúva que vive numa espécie de exílio forçado, está a ficar sem bens alimentares e começa a ser perseguida por uma figura misteriosa. Eu inspirei-me em muitas histórias fantásticas de bruxas e duendes que ouvi quando crescia, em Vale da Porca, e muitas dessas histórias foram contadas pela minha avó paterna, Teresa Tiago.

ROL – Como descobriste a paixão e vocação para o cinema?

CF – Eu desde muito jovem que sempre gostei muito de cinema, mas também tinha a noção de que não era um mundo fácil, muito menos em Portugal. Foi o meu namorado, que é realizador, que contribuiu para o fortalecimento desta paixão, pois ajudou-me a perceber melhor como funciona este universo.

ROL – Terror é o teu género de eleição?

CF – Gosto muito de terror, mas não me cinjo apenas a esse género, gosto de explorar outros também.

ROL – Embora tenhas deixado de viver em Trás-os-Montes há já algum tempo, a região tem muito peso nas tuas obras. É nela que buscas inspiração?

CF – Trás-os-Montes tem um encanto inefável, é difícil explicar por palavras esse encanto, é de facto um reino maravilhoso como referiu Miguel Torga e não é em vão que tantos cineastas e escritores tenham escolhido a nossa região para contar as suas histórias. As riquezas naturais, as tradições milenares criam todo este imaginário fantástico que tanto nos atrai. Será sempre uma inspiração para mim.

ROL – Mais tarde realizaste também a curta Tragédia, baseada no conto com o mesmo nome de Mário de Sá-Carneiro. Fala-nos um pouco deste trabalho.

CF – Tragédia é a adaptação cinematográfica do conto homónimo de Sá-Carneiro e aborda temas como adultério e eutanásia, muito ao estilo deste autor. Este demonstrava uma obsessão quase patológica com a morte, com frequência simbolizada no suicídio e este conto, apesar de ser um dos primeiros de Sá-Carneiro, já era guiado por uma certa melancolia depressiva que tentei transpor para o filme.

ROL – Neste momento já estás a trabalhar em algum projeto futuro?

CF – Neste momento está em pré-produção a minha próxima curta-metragem, mais ligada ao humor negro. O título é Y Rage e pretendo brincar um bocadinho com a nossa geração.

ROL – Quais são os teus planos para o futuro?

CF – Continuar a lecionar português, a escrever e a realizar.

ROL – Como te imaginas daqui a 10 anos: a escrever, realizar ou ambos?

CF – Dez anos é muito tempo, mas gostaria de fazer ambos.

 

Célia Fraga, a jovem macedense que venceu o prémio de Literatura Nortear, promovido pela Consellería de Cultura e Turismo – Xunta de Galicia, e pela Direção Regional de Cultura do Norte, como o objetivo distinguir obras literárias originais escritas por jovens dos 16 aos 36 anos, do Norte de Portugal e da Galiza.

Além destes, Célia venceu ainda o prémio Isabel Maria Aguiar Branco e Silva, do Centro de Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, destinado a professores dos Ensino Básico e Secundário.

Escrito por ONDA LIVRE

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