As altas temperaturas fora de época, que se registaram no mês de outubro, também trouxeram consequências para os cogumelos silvestres.
O problema dos castanheiros foi outro fator que influenciou, explica o biólogo, Carlos Ventura:
“Chegou a preocupar porque tivemos temperaturas completamente desconexas, com 35º/36ºc, deu-se um fenómeno a nível dos castanheiros, que ficaram com a folha completamente murcha e, automaticamente, os castanheiros deixaram de fazer fotossíntese e não puxaram os boletos.
Neste momento há umas espécies que têm tendência a surgir com menores temperaturas mas que esperemos que surjam brevemente.”
No entanto, o excesso de chuva, nos últimos dias, também prejudicou alguns cogumelos.
Atrasadas estão ainda algumas espécies como os lactários e os boletos, muito vendidas para Espanha, porque em Portugal ainda não há legislação nem possibilidade de certificar os cogumelos silvestres, o que acaba por ter de ser feito no país vizinho:
“Algumas espécies que são emblemáticas e representativas nesta altura do ano, como é o caso dos lactários e dos boletos, surgiram em muita pouca quantidade ainda.
Normalmente são essas espécies que dão sustento a muita gente na apanha sazonal para depois ser feita a venda para Espanha.
Mas penso que ainda vão surgir. Para isso precisam daquele choque térmico com um pouco de diminuição de temperatura.
Esperemos que ainda surjam porque é uma mais-valia económica para os nossos agricultores. É um recurso que se for aproveitado, não se estraga no monte e as pessoas criam mais-valias. Mas é preciso haver regras ecológicas.
A legislação em Portugal ainda não existe. Eu já há cerca de oito anos referi, ao secretário de estado da agricultura, que era necessário que se trabalhasse urgentemente, nem que houvesse uma cópia da legislação espanhola ou europeia, mas que se criassem dinâmicas e sinergias para que isto pudesse estar regulado e regulamentado.”
Declarações à margem das IX Jornadas Micológicas de Vale Pradinhos, no concelho de Macedo de Cavaleiros, que tiveram lugar este sábado e juntaram cerca de 200 participantes, que não quiseram perder a oportunidade de ficar a conhecer um pouco mais sobre as espécies existentes nesta zona do país:
“Somos de Redondelo, em Chaves, e é a primeira vez que estamos nestas jornadas.
Somos amantes de cogumelos, sempre fomos apanhá-los, o que antes fazíamos na Catalunha. Ao pé de casa já apanhámos muitos e estamos contentes.
Viemos aprender um pouco mais sobre algumas espécies locais que não conhecêssemos.
É um encontro super animado e engraçado.”
“Venho do Porto e é o terceiro ano consecutivo que cá estou.
Gosto muito e já comi três cogumelos grelhados.
Acho que é uma iniciativa importante para quem gosta de cogumelos e não só, pois há o contacto com a natureza.
É um bom convívio onde se come bem e bebe-se melhor.”
“Venho do Porto e estou aqui pela primeira vez.
Já participei em outros eventos micológicos e achei que era giro passar por cá.
Tudo que seja cultura portuguesa atrai-me, nomeadamente um convívio e a partilha da cultura, o que para mim é o fundamental, com o cogumelo à mistura e até já reconheci alguns.”
Pedro Sousa é micófilo e responsável pela organização de umas jornadas micológicas no Alto Minho, que têm lugar a 25 de novembro.
Não tem dúvidas de que há cada vez mais pessoas a interessarem-se por cogumelos:
“Quando comecei a organizar as jornadas, há cerca de 15 anos, havia três ou quatro organizações. Desde essa altura podemos dizer que as organizações são quase como cogumelos, tem havido um crescente número de atividades organizadas até de forma informal ou menos formal.
Para isto tem contribuído também o facto de se terem formado técnicos de micologia que ajudam a alavancar um pouco este conhecimento na questão dos cogumelos, se não for numa forma mais científica, numa perspetiva muito mais do utilizador, em que as pessoas querem saber quais são os comestíveis, os que são tóxicos, as boas práticas de colheita, etc.
Temos assistido, nos últimos anos, a um crescente número de pessoas interessadas por atividades relacionadas com a micologia e com os cogumelos em geral.”
As jornadas são organizadas pela Associação Cultural, Desportiva e Recreativa de Vale Pradinhos.
Este ano, devido ao mau tempo, houve menos participantes mas, ainda assim, rumaram à aldeia pessoas de vários pontos do país, refere o presidente da associação, Armando Edra:
“Foi um sucesso, como nos anos anteriores, só que, por causa do tempo, tivemos menos cerca de 50 participantes do que no ano passado.
Há aqui pessoas de Lisboa, Viana do Castelo e de outros lados.
Eu costumo dizer que este é um encontro de almas e é para isso que trabalhamos.”
As IX Jornadas Micológicas de Vale Pradinhos começaram com uma ida para o campo para identificar e apanhar cogumelos, contou com duas palestras e teve como ponto alto a já conhecida como a maior açorda de cogumelos do mundo, que foi servida aos participantes.
Escrito por ONDA LIVRE





