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AICNAS critica condições de acesso aos apoios para agricultores afetados pelos incêndios

O Governo anunciou, na passada sexta-feira, uma nova verba de 10 milhões de euros para apoiar a recuperação das explorações agrícolas afetadas pelos incêndios rurais de 2026.

No entanto, a presidente da Associação do Interior Centro e Norte de Agricultura Sustentável (AICNAS), Elisa Morais, considera que as condições de acesso são demasiado exigentes e podem deixar muitos agricultores de fora.

Este é o segundo apoio financeiro, de igual montante, aprovado este ano. A medida destina-se a explorações que tenham sofrido danos superiores a 30% do potencial produtivo e permite financiar a recuperação de plantações, infraestruturas e equipamentos agrícolas.

Os primeiros 10 mil euros de despesa elegível são comparticipados a 100%. Acima desse valor, o apoio é de 80% para agricultores com seguro agrícola e de 50% para os restantes beneficiários.

Elisa Morais considera que o processo de candidatura é agora mais complexo do que no ano passado e diz que muitos agricultores, apesar de terem sofrido prejuízos, não conseguem cumprir os critérios exigidos:

“Nem toda a gente se pode candidatar. A candidatura é muito mais complicada do que foi há um ano. Agora é um projeto a sério. Só se pode candidatar quem tiver prejuízos superiores a 30% na exploração.

Tenho alguns agricultores a quem ardeu tudo, mas há uma grande parte que não pode candidatar-se. É um rebuçado envenenado, como costumo dizer.

Estive hoje a selecionar as pessoas que se podem candidatar e as que não podem. Há ainda algumas dúvidas, nomeadamente sobre a possibilidade de mudar de cultura, mas tem de ser tudo justificado e documentado.

Não é nada daquilo que foi no ano passado. Mas temos de aproveitar o que há.”

A presidente da associação aponta também a burocracia e as exigências do processo como obstáculos, sobretudo para os agricultores mais idosos.

Entre as dificuldades está a necessidade de utilizar credenciais digitais e reunir documentação e orçamentos para apresentar as candidaturas.

Elisa Morais critica a falta de simplificação dos procedimentos por parte do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP):

“Há muito mais burocracia. Está tudo mais difícil ao nível dos papéis. Agora tem de ser com as credenciais do agricultor. Há pessoas que nem telemóvel têm e é uma confusão para conseguir fazer o registo.

Desde que entrou o PEPAC, está tudo muito mais complicado.

Antes, com o número e a senha do IFAP, fazíamos tudo. Hoje em dia, não. O IFAP, em vez de facilitar, ainda complica.”

A responsável acredita que, na área onde acompanha os agricultores, apenas dois ou três casos poderão avançar com candidaturas.

Considera ainda que o atual modelo não tem em conta as dificuldades específicas da agricultura do interior, marcada por explorações de pequena dimensão e parcelas dispersas.

Elisa Morais compara o processo com o aplicado no ano passado e critica a quantidade de documentação agora exigida:

“É um rebuçado envenenado. As pessoas com mais idade tentaram apresentar projetos. Porquê? Porque complicaram o processo.

No ano passado, o procedimento foi diferente. Bastava preencher um modelo.

Indicavam quantas oliveiras tinham ardido nesta parcela, quantas tinham ardido naquela e quantas noutra. Depois, eram eles que faziam as contas e pagavam ao agricultor.

Este ano é preciso apresentar um projeto. Pagam uma percentagem, penso que cerca de 2%, às associações que elaboram o projeto. Só que é necessária muita documentação.

É mesmo para as pessoas desistirem. Aqueles dois ou três agricultores mais novos, a quem já expliquei tudo, vão avançar. Já combinei com eles para virem cá. São pessoas novas, que investiram na exploração e que não têm projetos. Vão gastar mais de 10 mil euros.

Os primeiros 10 mil euros são comparticipados a 100%. O que ultrapassar esse valor, penso que, a partir daí, só pagam 50% do investimento.

É só para dizer que abriram as candidaturas. Mais nada.”

Ainda não está concluído o levantamento do número de agricultores do concelho de Torre de Moncorvo que poderão candidatar-se a esta medida. No entanto, cerca de 100 agricultores contabilizaram prejuízos provocados pelos incêndios deste ano.

O novo apoio de 10 milhões de euros abrange prejuízos provocados por incêndios ocorridos entre 1 de maio e 15 de outubro deste ano, em várias regiões de Portugal continental.

As candidaturas destinam-se a localidades que não foram abrangidas pelo aviso anterior, aberto em agosto e encerrado a 27 de outubro.

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