Se agora o Entrudo Chocalheiro faz parte do roteiro de muitos turistas, em tempos não era assim.
Os caretos de Podence são reis da festa, que com a sua cor e alegria brincam os com visitantes que se atrevem a passear nas ruas da aldeia.
Tempos idos em que não havia espaço para fotografias para recordação, e em que o Entrudo era levado à séria, com autênticos diabos à solta. Foi o que nos contou Luís Cabeleira, que nem por ter emigrado perdeu as raízes de careto.
“Antigamente era melhor do que hoje.
Porque antigamente toda a gente levava a brincadeira para aquilo que era.
Chegava a esta hora. No Domingo Gordo, começávamos a entrar nas casas das pessoas, e ali fazíamos ali uma farra todos. Entrávamos para comer e beber.
As meninas quando ouviam os chocalhos metiam-se debaixo das camas. Fechavam-se nos quartos de banho.”
As mulheres, essas, trancavam-se bem longe dos irreverentes caretos. O que não os impedia de as tentar chocalhar.
“Hoje fazemos cuidado porque sentimos que o carnaval está a ficar famoso.
Noutros tempos, não havia mulheres na rua. Era tudo nas varandas, a ver das janelas, fechadas.
E nos engatávamos por ali acima, subíamos as janelas.
Às vezes davam-nos com as janelas nos dedos. Ai!
Era isso.”
Manuel Rodrigues, ex-presidente da Junta de Freguesia, tem agora mais tempo para se dedicar às tropelias de careto.
É ele que nos dá conta de que o Entrudo já atraía curiosidades antes do mediatismo que a tradição assumiu agora.
Há 40 anos, época em que só saíram três caretos em toda a aldeia, havia quem viesse filmar esta inquietante festa.
“Isto deve ter cerca de 40 anos, mais ano, menos ano.
E apareceram aí umas pessoas a filmar, que não sabíamos quem eram.
Pensávamos que eram curiosos que andavam aí, mas não fazíamos a mínima ideia.
E então, mandavam-nos fazer umas provas. Uma delas era subir uns degraus de umas escadas de um palheiro. Subíamos uns degraus, tinham um patamar, e pulávamos para o chão.
Na filmagem, no pulo, dá a impressão que estamos a pular de um campanário.
Não sei se era muito alto ou baixo. O que sei é que quando chegou a minha vez, vou a pular e a máscara cai-me, e em vez de cair com os pés, caí com os joelhos.
Esfolo os joelhos, dei cabo do nariz com a máscara. Fiquei a verter sangue, e continuo a prova sem me queixar.”
Vieram, mais tarde, a saber que se tratavam de um grupo de ingleses que se deixou encantar com estas figuras míticas transmontanas.
“Sentámo-nos todos ao lume, e até tínhamos um bom manjar, que o fumeiro estava por cima de nós, e estava raso de chouriças, salpicões, linguiças, alheiras.
E estávamos lá numa conversa, a ser filmados, e nós a continuar sem saber quem era que nos estava a filmar.
Bem, passados uns anos, eu recebo uma fotografia desse ano. Nesse ano éramos só três caretos. Vocês vejam, um carnaval com três caretos, e fazia-se.
Vim a saber que eram uns ingleses, que andaram a filmar um carnaval com três caretos. Pequeno, mas genuíno.”
Dizem que para ser careto não é preciso ser de Podence, mas sim querer viver e fazer viver a tradição.
É o caso de José Coimbra, natural de Coimbrões, Vila Nova de Gaia. Está emigrado em França, e veio a convite do seu amigo Luís Cabeleira.
“Este ano é a primeira vez. Vim com o meu amigo.
Achei muito bem esta tradição.
Chocalhei muito.
Chocalhei muitas, muitas meninas. E pessoas no geral.”
O Entrudo em Podence continua a ser genuíno, mas há quem recorde outros tempos, em que a festa se fazia longe do olhar dos curiosos.
Nessa altura as mulheres não desafiavam os caretos na rua, e ficavam trancadas ou escondidas em casa, para evitarem serem chocalhadas.
Mudanças à parte, as ruas de Podence continuam a vestir-se de verde, amarelo e vermelho e a dançar ao som dos chocalhos dos caretos.
Este ano foram cerca de 70, que garantem que não deixaram morrer a tradição.
Escrito por ONDA LIVRE



